terça-feira, 21 de setembro de 2010

Aventuras de papel

Um senhor nobre, e bem de vida, cansou de sua existência vazia e superficial. Decidiu sair pelo mundo em busca de heróicas aventuras. Lembrou-se que tinha no estábulo um cavalo de raça. Imediatamente ordenou aos servos de lhe trazerem o fogoso animal bem arrumado para uma grande viagem. – Meu grande e generoso amigo – bradou o nobre subindo no cavalo – conduze-me onde têm injustiças para sanar, malfeitores para punir, sofrimentos a serem aliviados. Que as minhas façanhas não tenham limites e nunca se apague o vigor que agora estou sentindo. Amigo, chegue com a força de uma tempestade entre os exércitos inimigos. Corra com furor entre os selvagens e os bárbaros. Quero lutar onde for preciso e quero o meu nome coberto de glória e triunfo. Coragem, companheiro, corra, voe, abra o caminho mais difícil, busque a vereda mais escondida, trilhe sem medo as sendas do desconhecido...

O cavalo, que não estava acostumado a tanto entusiasmo, começou a andar pelos campos, meio tonto por causa de tantas novidades. De repente ficou indeciso, duvidando da direção. Parecia arrependido. Assim deu meia volta e voltou correndo para o seu estábulo.

– No final das contas, sábio e prudente amigo, reconheço que hoje você tem razão, bem pensado! – disse o aristocrático senhor, descendo do cavalo. Naquele momento, decidiu firmemente que recomeçaria tudo de novo no dia seguinte, mas, depois, achou melhor esperar por mais um dia. Assim, passaram-se  semanas, meses e anos. O nobre senhor acabou esquecendo-se de tudo, tão ocupado que estava na leitura dos seus inseparáveis livros de aventuras de outros tempos.

Essa historinha nem precisa de muitos comentários. Quem de nós nunca fez propósitos que ficaram só como boas intenções? Quantas decisões são tomadas com entusiasmo, mas, quase sempre, para serem realizadas no dia seguinte. Nesse caso, toda desculpa é boa para que nunca chegue o “amanhã”.

O evangelho deste domingo pode nos dar a impressão de que Jesus queira nos espantar com exigências pesadas demais. Parece desumano o que o Senhor pede: o desapego nada menos do que da nossa família e da nossa própria vida. Também pede a renúncia a tudo o que temos. O que seria de nós se tomássemos ao pé da letra essas palavras? Será que Jesus quer ter mesmo algum discípulo pronto para segui-lo? Vamos dar a resposta em dois tempos. O seguimento do Senhor é mesmo muito exigente, porque não tem nada que tenha mais valor do que o Reino. A questão é que nós acabamos colocando em contraposição as exigências do Reino àquelas da nossa família, dos nossos bens e dos nossos interesses.

O Senhor quer simplesmente nos ajudar a alargar os nossos horizontes. A nossa vida não pode acabar dentro da nossa família, do nosso negócio, do nosso dinheiro. É somente para isso que nós estamos neste mundo? Também para isso, é lógico, mas não só. A nossa família não está fora do Reino, pode ser experimentada e vivida como parte integrante do Reino, onde o Reino começa a acontecer. Neste caso, o amor seria mais sincero, a fidelidade seria uma alegria e o sacrifício uma verdadeira e total doação. O dinheiro também – veremos nos próximos domingos – poderia servir para o bem, para a fraternidade e não para dividir e explorar. O que nos falta é o olhar e o coração de Jesus. Até quando continuaremos a entender as coisas do nosso ponto de vista egoísta e cobiçoso, nunca conseguiremos o desapego dos bens materiais e a renúncia aos nossos mesquinhos interesses.

O segundo tempo da reflexão vem dos dois exemplos que o próprio Jesus faz. Do homem que não teve condição de acabar a obra iniciada e do rei que negocia a paz, porque sabe que está com um exército mais fraco do que o inimigo. O Senhor nos convida a fazer os cálculos e a chegar a um acordo antes de começar a obra ou a guerra. Também este não é um convite à desistência ou à diminuição das exigências do discipulado. Ao contrário, é uma proposta a confiar mais na sua ajuda do que nas nossas forças. Com efeito, ele não quer que passemos a vergonha de sermos apontados como seguidores incapazes, medrosos e falidos. Muito melhor é realizar uma obra menor, mas chegar até o fim, do que nos deixar levar pela ambição e deixar a grande obra inacabada. Na construção do Reino a humildade é sempre uma grande virtude.

Devemos, portanto, ser discípulos humildes, mas decididos. A aventura da fé só pode ser verdadeira, não deve ser mais uma das tantas aventuras de papel deixadas para um amanhã que nunca chega.
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por Dom Pedro José Conti


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